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O meu filho dava um livro...

... e vários filmes!!! Num elenco de luxo, temos como protagonista Salvador, nascido a 28.04.2010, em cenários da vida quotidiana. Registado no nosso dia-a-dia, por isso aconselha-se alguma prudência quando imaginar as cenas descritas: são bem reais..

O meu filho dava um livro...

... e vários filmes!!! Num elenco de luxo, temos como protagonista Salvador, nascido a 28.04.2010, em cenários da vida quotidiana. Registado no nosso dia-a-dia, por isso aconselha-se alguma prudência quando imaginar as cenas descritas: são bem reais..

Para onde vão os dodóis?

- Mão, o qué isso tens na mão? - pergunta ele, enquanto afaga a minha cicatriz.

- Foi um dodói que a Mãe fez, mas já passou.

- Foi o quê?

- Quando eras pequenino, e ainda mal sabias andar, vieste ter com a Mãe quando estava a passar a ferro. Foste contra a tábua e o ferro abanou e então, para ele não cair em cima de ti, a Mãe pôs a mão e queimou-se - concluo.

- Isso foi quando fomos ao 'spital e um bicho picou a ti no pé e ele ficou muito grande?

- Não, Filho, dessa vez quem se queimou foi o Pai e nós ficámos na rua à espera dele.

 

(Gostava de saber como é que ele se consegue lembrar com tanto pormenor de uma coisa que aconteceu ainda ele nem sequer tinha um ano e meio.... Estas cabecinhas são mistérios insondáveis!)

 

- Eu já queimou-se também?

- Não Filho, e ainda bem porque dói muuuuuuiiiitoo!!! Por isso é que a Mãe e o Pai te estão sempre a avisar que não se mexe em coisas quentes.

- E 'pois?

- E depois o quê?

- O que aconteceu na tua mão?!?!?

- Fez uma bolha muito grande, a bolha rebentou, depois fez um buraco e agora está assim, só um bocadito escuro.

- Ah... E o buraco?

- Desapareceu.

- Era um dodói?

- Era, mas agora já está bom.

- E foi p'a onde?

- Como?

- P'a onde foi o dodói?

- Desapareceu.

- P'a onde?

- Para lado nenhum, Filho. Ficou bom e pronto.

- E 'pois de bom foi p'a onde? - insiste.

- Olha para a tua mão - peço.

- Qué foi, ' que'la tem?

- Diz-me tu.

- Tem nada.

- E quando tu caíste de bicicleta o que ela tinha?

- Um dodói.

- E agora?

- Tu p'seste uma pomada e ela ficou boa.

- Isso mesmo!!

- 'Tou a peceber. Mas quem levou o dodói?

- Ninguém, Salvador, são as coisas boas do sangue que trabalharam muito depressa para o dodói ficar bom.

- E levaram ele p'a onde?

- Quem?

- O dodói. P'a onde foi o dodói?

- Desapareceu, como magia das fadas boas do sangue.

- Oh, que bom, Mãe!!!

- É, não é? - pergunto, aliviada pela saga ter acabado.

- Mãe?

- Sim, Filho?

- E para onde as fadas levam os dodóis?

- Eles desaparecem dentro de nós.

- Temos um sitio p'a eles irem?

- Não - respondo peremptoriamente antes que me pergunte onde é esse lugar.

- E eu posso ver as fadas boas do sangue?

- Não.

- Porquê?

- Porque elas são um segredo que não se vê.

- Então como sabes que elas 'tão lá?

- Mas nós não viemos para aqui para eu te deitar?

- Sim, mas eu quero tanto saber para onde vão os dodóis....

- Muito bem, amanhã vemos isso.

- P'ometes?

- Sim, Filho.

 

Felizmente, no outro, dia não se lembrou, porque estas conversas são autênticas pescadinhas de rabo na boca...

Cheira bem... No sítio errado

O Salvador tinha pouco mais de um ano.

Sei porque não andava assim há tanto tempo quanto isso, e eu estava habituada a que ele - mais ou menos - ficasse no sítio onde o deixava.

 

Fui à cozinha preparar-lhe o lanche, quando ele aparece ao pé de mim a chorar e de boca muito escancarada.

Nunca o tinha visto de boca tão aberta, pelo que estranhei.

A minha reação foi baixar-me, dar-lhe um abraço e tentar acalmá-lo.

 

Ele já dizia umas coisas, pelo que lhe perguntei:

- O que foi, Bebé? Porque estás a chorar, conta à Mamã…

E ele apontava para a boca e as lágrimas caíam.

Foi quando me aproximei da boca que percebi: o amigo exalava um cheirinho maravilhoso… a sabonete!

 

Tentei acalmá-lo, peguei-lhe e fui-lhe lavando a língua.

Quando parou de chorar, pedi-lhe que me mostrasse o que é que tinha andando a fazer.

 

Levou-me à nossa wc e apontou para o sabonete. Estava todo amassado pelo que me alarmei ainda mais.

- Estiveste a comer sabonete?

- Nã!! Axim, Mã - e imitou o gesto de lamber.

- E foi bom?

- Nã!! – e recomeçou a chorar.

- Pronto, Bebé, já passou. Não chores, está bem?

- Nã!!

- Não porquê?

- B’incar xem boca, xó mãos, xim?

 

Estava na hora de ponderar comprar-lhe plasticina, agora que ele já tinha percebido que há coisas que não são para pôr na boca ou lamber…

E na hora de eu me mentalizar que se me tinha acabado o sossego!