Mergulho para… o castigo
Estava a descansar ao final da tarde, quando ouvi um barulho esquisito.
Pensei: «lá está ele a revirar e a despejar a caixa dos Legos. É bom que depois arrume.» Contudo, a gritaria que se seguiu prenunciava algo de diferente. Mas de tão diferente que nem me passaria pela cabeça…
Entram ele e o Pai no quarto, num silêncio sepulcral.
- Mostra lá à Mãe o que é que fizeste.
Ele entrega-me o tablet, mas como o quarto estava escuro, não percebi.
- O que foi? – Pergunto
O Pai acende a luz e na minha cabeça também se fez luz… antes tivesse ficado “às escuras”.
- Salvador, o que é que aconteceu ao teu tablet?!?!? – Pergunto ante a visão de um monitor com 3 arcos como se fossem o arco iris…. Mas de rachas.
- Eu atirei ele.
- Atiraste-o de onde?
- Dali, das madeiras lá para abaixo.
«Das madeiras lá para baixo» é do mezzanine para a sala… Um "mergulho" de uns bons 3 a 3,5 metros de altura.
- Então e agora, estás feliz? Vais ficar sem tablet, que o Pai e a Mãe não têm dinheiro para te comprar um tablet novo…
- E agora? – Interrompe o Pai – Agora vai ficar no quarto de castigo, a pensar no que fez e não há cá mais tablets ou computadores para jogar para este menino!
E ele ficou.
A atirar as coisas todas pelo ar, a chorar de raiva. Não descansei mais.
Levantei-me, obriguei-o a apanhar e arrumar tudo e lá ficou sentado na cama a pensar na vidinha… sem tablet.
- Porque é que atiraste o tablet? – Pergunto calmamente.
Responde-me com um encolher de ombros.
- Sabes que não vais voltar a ter tablet tão depressa? Esse é que é o teu verdadeiro castigo, não é estares aqui no quarto. O teu castigo é não haver mais tablets para o Salvador, que se comportou como um bebé, a atirar as coisas da varanda, quando na verdade já é um rapazinho com quase 5 anos. – explico-lhe antes de o deixar no quarto sozinho.
Fica a olhar para mim, com aquele olhar de carneiro mal morto que todos os miúdos parecem treinados para fazer quando estão de castigo.
Tenho pena, porque ele gostava muito de jogar e fazia jogos bastante elaborados quando comparados à idade dele. E já sabia mexer no meu computador e coordenar muito bem o rato...
Mas penas têm as galinhas e, por muito Mãe-galinha que eu seja, nada justifica este comportamento.