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Quem diria….

Registado pela Mamã, em 21.11.14

Ontem à noite, à ceia:

- Amanhã era o dia ideal para ficarmos em casa a dormir até nos caírem 3 pernas…. – Digo eu, enquanto mergulho mais uma bolacha Maria no leite.

- Podes crer, Mãe!!

- Diz o menino – interrompo eu abruptamente – que, assim que lhe «cheira» que o Pai está levantado, vem logo a correr ter com ele para ficar a ver desenhos animados – respondo desdenhosamente.

 

O Pai é detentor de um relógio biológico infalível: às 7 da manhã está acordado e levanta-se, seja que dia da semana for. O Filho, que ao fim de semana bem podia aproveitar para ficar a dormir mais um bocadinho, acorda pouco depois e, assim que o vê no andar debaixo, corre a juntar-se-lhe…

 

- Quem diria… - começa ele, com uma expressão entre o admirado e o resignado…

- Quem diria o quê? – Questiono.

- Que conheces-me… que me conheces tão bem, Mãe. – Termina ele autocorrigindo-se.

- É normal, filhote, eu sou tua Mãe. Não há ninguém que conheça melhor os filhos que a Mãe: afinal, fui eu que te pari depois de 9 meses a cresceres na minha barriga…

- É verdade, Mãe….

 

(Sim, sim, para grande desgosto de alguns, quando falo com o meu filho “chamo o boi pelos nomes”: se fui para uma sala de parto na hora dele nascer, fui parir e não celebrar um contrato de fornecimento de energia elétrica com o obstetra para que me ajudasse a dar à luz….)

 

No final desta conversa fiquei meia azamboada: parecia que estava a falar com um adolescente. Há cada vez mais situações em que tenho que olhar duas vezes para esta criança para me certificar do tamanho e idade que ela tem.

Se bem que, a julgar pelo tamanho, a minha vizinha da frente ia jurar que ele tinha 7 anos e não percebia porque é que ele não andava na rua a brincar com os outros meninos… Talvez porque ainda é demasiado infantil para eles…. Quem diria…

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Novos amigos…. Mas pouco

Registado pela Mamã, em 10.09.14

Ontem ao jantar:

 

- E então Filho, como foi o teu dia: brincaste muito na piscina?

- Sim.

- E deste muitos mergulhos?

- Só dois.

- E brincaste sozinho?

- Não, brincou com uns meninos que lá estavam – responde a Avó.

- Ah sim?! Olha que bom! E como é que se chamam os meninos?

- Num sei.

- E moram aqui no condomínio?

- Num sei.

- Não sabes, como? Se amanhã os vires outra vez, como é que os chamas?

- (resposta: um encolher de ombros)

- Salvador, quando começamos a brincar com outros meninos, que não conhecemos, a primeira coisa que se faz é perguntar como é que se chamam, para os podermos tratar pelo nome – explico-lhe.

- Percebeste, Filho? – insiste o Pai – da próxima vez perguntas como é que se chamam, para saberes e poderes chamar os meninos pelo nome.

- (resposta: encolher de ombros e um silêncio meio prolongado)

- Ele está assim – começa a Avó a explicar – porque na verdade, como ele não sai da piscina pequena, não brincou muito com eles. Até a menina, que era mais pequena que ele, estava sempre a atirar-se para a piscina maior. – conclui.

- Ainda assim, Filho – replico – não faz mal andar na piscina pequena. Até é preferível, já que tu e a Avó não sabem nadar. Mas é bom saber os nomes dos meninos com quem se brinca.

- Para quê?

 

Enfim, não vale a pena insistir quando pela cara dele se vê que está telhado que nem um urso com a inconfidência da Avó….

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Complexo de Édipo

Registado pela Mamã, em 09.09.14

Ontem voltou à carga.

 

Já nem sei bem qual era o tema da conversa, até porque estávamos os dois frente ao meu computador a olhar para os jogos dele.

Por muito que me esforce, não consigo contextualizar, mas segue desde a parte em que me começou a «afetar»:

 

- O que eu gostava mesmo era de estar no lugar do Pai.

- Então vai lá e senta-te no lugar dele.

- Não, Mãe - replica naquele tom de «não percebeste mesmo nada» - Eu queria era ser teu namorado.

- Mas o Pai não é só meu namorado; nós somos casados, ele é meu namorado e marido.

- Mas o Pai podia ser o Marido e eu o namorado.

- Pois sim, esquece lá isso.

 

Confesso que estas conversas me incomodam.

Não sei lidar com este Complexo de Édipo, que demonstra que o meu filho está a ganhar uma identidade sexual.

Bem sei que é normal da idade, mas incomoda-me estar sempre de volta de mim e com estas conversas, o que é que querem...

 

À noite, deitou-se comigo e com o Pai; Eu resolvi fingir que já estava a dormir, a ver se ele sossegava e se o ia pôr na cama dele.

- Pai, posso ser namorado da Mãe?

- Para quê, Filho? A Mãe não precisa, já tem o Pai.

- Precisa sim!!! - afirma peremptório

- Precisa para quê? - insiste o Pai.

- Hã... Hum.... - hesita, para de repente disparar: - Porque só um é pouco. E só um fica com o trabalho todo: fazer o jantar e essas coisas.

- Não precisa nada!

- Precisa sim, a Mãe precisa de mais um namorado!!!

- Um qualquer - pergunta o Pai - Pode ser um qualquer??

- NÃO!!! Só eu!!!

 

Freud, anda cá abaixo ajudar-me nesta....

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Silogismo demonstrativo aos 2 anos e 7 meses

Registado pela Mamã, em 22.08.14

Sim, ele é precoce, mas daí a filosofar e apresentar-me um silogismo demonstrativo, confrontando-me com questões existenciais com apenas 2 anos e sete meses é demais para qualquer um...

 

Estávamos em Novembro de 2012 e ele estava a aprender as estações do ano na escola.

O Pai prometeu-lhe que, apesar de não haver neve onde moramos - por norma... - um dia o levaríamos a ver a neve.

 

Fui deitá-lo e ele estava extremamente cansado.

 

- Mãe, quando temos férias?

- No Inverno, Filho, no Natal.

- Não é no Natal que há neve?

- É.

- E não podemos ficar já de férias, Mãe?

- Não, Filho, não podemos.

- Porquê, Mãe?? Eu queria nós ficássemos juntos em casa.

- Pois, Salvador, mas a Mãe e o Pai não podem ficar em casa: Têm de trabalhar para ganhar tostão.

- E depois temos férias só no Inverno...

- É isso mesmo.

- E no Inverno há neve...

- Sim.

- Então, nas férias podem levar eu a ver a neve?

- Não pode ser, Filho.

- Mas porquê? - pergunta em tom desesperado, como quem está a pensar «esta conversa não está nada a correr bem para o meu lado»...

- Porque a Mãe e o Pai não têm tostão para te levar a fazer férias na neve.

- Então porque é que trabalham?!?!?!?!?!

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Saudades.... mas não muitas!

Registado pela Mamã, em 21.08.14

- Mãe, amanhã vou à escola. ‘Tou cheio saudades dos meus amigos, já não vejo eles há muito tempo.

- É verdade, mas para ires para a escola amanhã, tens que te deitar cedo porque tens que te levantar muito cedo para a Mãe te levar.

- Muito cedo, como assim?

- Tens que te deitar antes do «Beijo do Escorpião» (só percebe horários se lhe falarmos em períodos telenovelescos….) e levantares-te quando o Pai e a Mãe. Mas porque é que queres ir para a escola se podes ficar em casa com a Avó e deitar-te e levantar-te quando bem vos apetecer? Olha que quando a Avó for embora e começares a ir à escola, é todos os dias deitar cedo e levantar cedo….

- E se eu deitar-me depois do «Belmonte» e for à escola?

- O «Belmonte» acaba muito tarde, depois vais acordar cheio de sono, vais demorar muito tempo a despachar-te e ainda por cima vais para a escola cheio de sono. Não pode ser: ou é antes do «Beijo do Escorpião» ou ficas em casa com a Avó.

- E tu num vais ver o «Belmonte»?

- Não, eu vou dormir, que tenho que acordar cedo para ir trabalhar…

- Mas, Mãe – interrompe ele – são os últimos episódios!!! Temos que ver!!!

- Eu não tenho que ver nada e tu se queres ir para a escola ao invés de continuares de férias com a Avó, também não vais ver.

- OK, eu fico com a Avó…. Mas acho que devias ver o «Belmonte»!!! ‘Pois eu conto-te, se tu quiseres mesmo ir dormir…. Mas olha, são os últimos episódios e ‘pois tu não sabes como acaba!!!

 

Acaba sempre da mesma maneira: como ele a comer na cozinha, a ir lavar os dentes e a deitar-se às tantas da noite para acordar no dia seguinte por volta da hora de almoço.

Mas deixá-lo. Já bem basta o resto do ano em que não tem a Avó para poder fazer estas noites telenoveleiras….

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Para onde vão os dodóis?

Registado pela Mamã, em 13.07.14

- Mão, o qué isso tens na mão? - pergunta ele, enquanto afaga a minha cicatriz.

- Foi um dodói que a Mãe fez, mas já passou.

- Foi o quê?

- Quando eras pequenino, e ainda mal sabias andar, vieste ter com a Mãe quando estava a passar a ferro. Foste contra a tábua e o ferro abanou e então, para ele não cair em cima de ti, a Mãe pôs a mão e queimou-se - concluo.

- Isso foi quando fomos ao 'spital e um bicho picou a ti no pé e ele ficou muito grande?

- Não, Filho, dessa vez quem se queimou foi o Pai e nós ficámos na rua à espera dele.

 

(Gostava de saber como é que ele se consegue lembrar com tanto pormenor de uma coisa que aconteceu ainda ele nem sequer tinha um ano e meio.... Estas cabecinhas são mistérios insondáveis!)

 

- Eu já queimou-se também?

- Não Filho, e ainda bem porque dói muuuuuuiiiitoo!!! Por isso é que a Mãe e o Pai te estão sempre a avisar que não se mexe em coisas quentes.

- E 'pois?

- E depois o quê?

- O que aconteceu na tua mão?!?!?

- Fez uma bolha muito grande, a bolha rebentou, depois fez um buraco e agora está assim, só um bocadito escuro.

- Ah... E o buraco?

- Desapareceu.

- Era um dodói?

- Era, mas agora já está bom.

- E foi p'a onde?

- Como?

- P'a onde foi o dodói?

- Desapareceu.

- P'a onde?

- Para lado nenhum, Filho. Ficou bom e pronto.

- E 'pois de bom foi p'a onde? - insiste.

- Olha para a tua mão - peço.

- Qué foi, ' que'la tem?

- Diz-me tu.

- Tem nada.

- E quando tu caíste de bicicleta o que ela tinha?

- Um dodói.

- E agora?

- Tu p'seste uma pomada e ela ficou boa.

- Isso mesmo!!

- 'Tou a peceber. Mas quem levou o dodói?

- Ninguém, Salvador, são as coisas boas do sangue que trabalharam muito depressa para o dodói ficar bom.

- E levaram ele p'a onde?

- Quem?

- O dodói. P'a onde foi o dodói?

- Desapareceu, como magia das fadas boas do sangue.

- Oh, que bom, Mãe!!!

- É, não é? - pergunto, aliviada pela saga ter acabado.

- Mãe?

- Sim, Filho?

- E para onde as fadas levam os dodóis?

- Eles desaparecem dentro de nós.

- Temos um sitio p'a eles irem?

- Não - respondo peremptoriamente antes que me pergunte onde é esse lugar.

- E eu posso ver as fadas boas do sangue?

- Não.

- Porquê?

- Porque elas são um segredo que não se vê.

- Então como sabes que elas 'tão lá?

- Mas nós não viemos para aqui para eu te deitar?

- Sim, mas eu quero tanto saber para onde vão os dodóis....

- Muito bem, amanhã vemos isso.

- P'ometes?

- Sim, Filho.

 

Felizmente, no outro, dia não se lembrou, porque estas conversas são autênticas pescadinhas de rabo na boca...

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Papéis invertidos

Registado pela Mamã, em 08.07.14

Cenário da noite: Com o Pai ausente, Filho e Mãe deitam-se juntos na cama dos pais.

E cedo, para compensar a noitada de «Tubarões».

 

Cada um com o seu tablet, para dar aquele toque de «Não, o pessoal não foi dormir assim que acabou de jantar», ficámos, lado a lado, cada um na sua vidinha.

 

Cena 1:

- Mãe, quando é que vamos dormir?

- Quando eu disser: a Mãe sou eu, ontem deitámo-nos tarde e hoje não é para estarmos acordados muito tempo - esclareço para que não haja margem para dúvidas.

- Estááá beeeemmmm... - replica ele.

 

E logo de seguida:

- Mãe, pode-se saber porque é que estás com essa cara?

- Estou com sono, a bateria do tablet está quase a acabar e, quando isso acontecer, vamos dormir - resmungo, preocupada porque o Pai ainda não deu notícias.

- Huum, acho que 'tás a mentir a mim - diz ele sem tirar os olhos de uma versão natalícia do Bubble.

- Não, Filho, não estou. É só porque não estou a conseguir jogar como deve ser e estou irritada - invento - Desculpa, Filho.

- Podes até mandar a gente dormir, porque és a Mãe - começa ele - mas esse jogo é de crianças e, como eu sou A criança, quem manda nisso sou eu.

- Hã??? - pasmo.

- Sim - afirma ele convicto - Vais parar de jogar, pões o tablet a carregar p'a poderes trabalhar amanhã e desligas tudo que estás com uns olhos cansados de sono.

 

Cena 2:

- Mãe, fizeste o que eu mandei-te? - questiona em tom autoritário.

- Sim, Salvador: o tablet está a carregar e nós já estamos de luz apagada para dormir.

 

5 segundos de silêncio, numa voz doce:

- Mãe, tu 'tás preocupada com o Papá?

- Não Filho, estou só com saudades.... - minto pela segunda vez em menos de 10 minutos.

- Mãe, num preocupas-te, está bem?: eu estou aqui, sou o homem da casa e vou cuidar de ti. Chega p'áqui qu'eu faz-te festinhas na cabeça p'a tu dormires.

 

Cena 3:

- Mãe, importaste de desligar o telemóvel??

- Mas tu não estavas a dormir!!?!?

- Eu estava mas 'pois mexeste no teu telemóvel, com essas luzes todas, e eu agora acordei. Não achas que já é tarde??? - resmunga.

- Tens razão, Filho, mas estava só a mandar uma mensagem ao Papá para ver se ele já tinha chegado.

- E chegou?

- Sim, Filho, já chegou.

- Ele está bem?

- Sim, Filho, está, fica descansado.

- Eu ficava, Mãe, mas para isso deixa o telemóvel na mesa e dorme p'a eu dormir, que amanhã temos que acordar cedo para o trabalho e para a escola, certo?

- Certo, Salvador, certo....

 

Sempre foi minha convicção que haveria uma altura em que teriam de ser os filhos a pôr os pais na linha.

Nunca pensei que chegasse a vê-la, quanto mais a vivê-la.

E muito menos nas mãos de um pirralho de 4 anos...

 

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... e vários filmes!!! Num elenco de luxo, temos como protagonista Salvador, nascido a 28.04.2010, em cenários da vida quotidiana. Registado no nosso dia-a-dia, por isso aconselha-se alguma prudência quando imaginar as cenas descritas: são bem reais..



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